sábado, 15 de setembro de 2007

Intermitências


(§ofia)
aa
A luz está ainda acesa. E o galo que canta lá fora assiná-la o culminar de uma noite em branco numa manhã fria e cinzenta.
Doem-me os medos. Doem-me essas horas que passam ao sabor dos ponteiros do relógio e os dias sem destino. Tenho o corpo entorpecido pelos passos que não dei e as mãos calejadas à força das palavras que não escrevi. Queria gritar, mas a voz enrola-se na garganta e dissipa-se antes de produzir qualquer som.
Quantas imagens vês no espelho, Sofia? Quantas vezes já te apeteceu afogar a cabeça na almofada para nunca mais de lá sair? Diz-me por que razão o oxigénio que te corre no sangue te está a corroer aos poucos. Diz-me por que motivo já não há nenhum fragmento de ti em que seja capaz de te reconhecer.
Eis que chegou a hora da encruzilhada. E tudo o que me resta são os resquícios de uma alma esfarrapada e prostrada, consumida por essa vontade cega de infinito. Os sete palmos de terra que um dia cobrirão o meu rosto feito em pó são tudo o que possuo. Carrego comigo apenas alguns anos atrás das costas e o oceano dos meus olhos que quase nada viram. Estou num lugar sem nome, nem Norte, no qual as horas discorrem até à exaustão. E onde permaneço inerte nessa fracção de tempo estanque entre a mão e o toque.
aa
aaaa

§o(...)fia

Da água que nos gela até aos ossos erguem-se, majestosas, as rochas. Um vento vindo de Norte vagueia pelas ondas e corta a réstia de calor de um Sol já fugido.
À semelhança de todas as outras tardes, ela está lá, um pequeno ponto no meio do oceano. Reparo que tem o nariz queimado e a pele esbranquiçada pela salina, ao sair da água. É bonita e tem a felicidade tatuada nas covinhas que se formam em cada um dos cantos dos lábios quando sorri. Chama-se Sofia e o nome assenta-lhe bem. É inteligente e extrovertida. Fala alto, por entre gestos largos e afáveis, e aqueles que agora a rodeiam, sentados na areia, bebem-lhe as ideias e o olhar. Todos quantos a conheçam elogiar-lhe-ão a garra e o bom-senso com que encara a vida
E, no entanto, há nela algo inquietamente profundo, demasiado devastador para ser revelado. Ninguém sabe qual o segredo que guarda trancado dentro de si, mas dizem por aí que, por vezes, o liberta, durante a noite, quando está a sós. Não imaginam eles que ela se encontra comigo todas as noites. A uma hora suspensa no tempo. E que, dançando sem nunca nos tocarmos, ela deixa de ser uma outra pessoa, para passar a ser um outro eu. Um eu visível e igualmente verdadeiro que, ao contrário de mim (que aqui escrevo), sabe o caminho para casa.

9 comentários:

Mateso disse...

Parabéns!
Na verdade esta dualidade do "EU" está um encanto... tantas vezes assim somos, tantas...uma docçura!~Um beijo.

Beatriz disse...

...

existem demasiadas intermitências a precisar de cola para que as peças que nos compõem se voltem a unir e a encolher os espaços vazios - essas tais intermintências...

Um abraço e boa sorte para este primeiro dia do resto da tua vida

Tiago disse...

Presente e Passado!
Sem dúvida, do melhor que escreveste.
Um grande texto, quase que vi a tua alma dançar com a réstia do passado.
Há que abrir janelas, deixa-la voar mais e ao corpo exigir que a acompanhe..

Beijo mto grande*

jpcavadas disse...

ola sofia. foi um acaso este breve encontro. um olhar na tua escrita, um acaso mesmo. mas o ke me fez olhar para ti foi o teu nome "sofia", gosto muito, e o teu apelido que por coincidência é igual a tantos nos quais me incluo.
podes conhecer-me melhor se pesquisares paulo cavadas ou então vai a http://cavadas.paulo.googlepages.com . E já agora... escreves bem. Queres fazer umas letras para mim? bjkas

Mateso disse...

Obrigada pelas tuas palavras lá no meu cantinho. Quanto ao tempo.. minha querida, quando somos jovens é tão curto para tudo o que nos propomos fazer e depois? ... é tão lato para o pouco que temos já feito...
Tudo de bom para ti neste novo início de ano académico?!
Bj.

Rio disse...

o q sentes, sinto eu tb grd parte do tempo. nem sei se é bom ou mau, sentir em unissono isto

Unknown disse...

Olá mocinha...
Mais um encontro por culpa do acaso ou sorte em minha vida...
Foi uma grata surpresa passar por aqui, a simplicidade de tuas palavras revela a clareza de tua alma, menina...
Mesmo nessa dualidade do "Eu", ou melhor do "Nós". O que é sempre imutável é a essência que cada um tem dentro de si...
Cuida-te moça...
Até a volta...até a próxima... até um dia...
Valeu!:)...

Mateso disse...

Aproveito ainda este post para te desejar um Feliz Natal.
Um beijo

Anónimo disse...

Olá
Não sabes quem eu sou, mas achei piada porque temos o mesmo apelido.
Cavadas, só que eu sou José.
Sou de Cantanhede. De onde és?