quinta-feira, 13 de março de 2008

Interregno


A música que agora soa nos meus ouvidos é a mesma que tocava no momento em que escrevi pela primeira vez neste blog. Foi um amigo meu, um grande amigo, a enviar-ma há já muito tempo. Estava esquecida no meio da enxurrada de ficheiros de música que guardo no computador e, hoje, eu decidi ressuscitá-la. Ela decidiu trazer-me até aqui.
Durante estes seis meses de interregno em que aqui não escrevi, foram muitas as vezes em que pensei encerrar este espaço. Encerrar e começar num outro lugar, com outro nome, outra face, outra cor. A verdade é que até cheguei a elaborar uma espécie de rascunho para um novo blog, mas acabei por não levar a sua concretização avante.
Sou, agora, obrigada a confessar que esta ideia de criar um novo espaço para a escrita está visceralmente associada a uma sede de mudança que me assolou há uns meses. Eu, a menina certinha, que vai sempre a ler um livro no comboio, que tem arquivados todos os cadernos e todas as folhinhas que escreveu desde a primária até ao ensino superior, que lê o jornal, e que faz questão de ter uma opinião sobre tudo e mais alguma coisa. Eu, Ana Sofia, decidi mandar essa ideia de perfeição, que tenho colada a mim desde criança, para trás das costas e mudar de rumo. Não, não resolvi enveredar pelo mundo artístico ou fazer as malas e partir sem destino. Decidi perseguir um sonho antigo. Um sonho que não vou revelar. Falemos disso talvez em Setembro. Neste momento, importa dizer que mantive este blog de portas abertas porque quero fazer dele aquilo que estou a tentar fazer comigo. Lavar a pele de toda a poeira que deixei que se arraigasse a mim. Não me interpretem mal, não pretendo apagar, nem esquecer nada do que fiz, do que fui, do que sou. E é por isso que vou continuar a manter disponíveis textos nos quais já não me revejo, nem do ponto de vista pessoal, nem do ponto de vista criativo. Não vou alterar as vírgulas que vi fora do sítio, ou aquelas construções gramaticais que, agora, parecem estar a estragar a harmonia das palavras. Acredito que os erros e as hesitações que cometi são portadores de um sentido. Tudo o que quero é mergulhar de cabeça na água, deixando que, pela primeira vez, o frio me trespasse e me desperte até aos ossos. E eu acorde dentro do sonho.
Não vou viver como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou.
Às vezes ando só, trocando passos com a solidão,
Momentos que são meus e que não abro mão.
aa
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora.
Escuto no silêncio que há em mim e basta,
Outro tempo começou pra mim agora.
aa
"P'ra rua me levar", música e letra de Ana Carolina e Totonho Villeroy.

4 comentários:

Anónimo disse...

Querida amiga.

Ainda bem que foi uma musica minha que conseguiu despoletar tudo isso em ti.

Adorei este novo ressurgir. É engraçado como escreveste palavras que gostava eu de as ter escrito ha uns tempos atrás.

Apesar disso, eu, se calhar num acto de fraqueza, desisti do meu blog.

Gostei do novo aspecto e do titulo, embora te diga desde já que ao ler o teu blog nao ha nada que pare ao frio desse zero.

Adorei a passagem submersa final para o sonho,

Beijinho

s. disse...

é importante não apagar o passado. se queremos saber o que somos não convém esquecer o que fomos*

Beatriz disse...

Depois de ler isto, pensei em dar-te um comentário bem breve, que dissesse alguma coisa como "força, fazes tu muito bem, desejo-te o melhor". Mas depois dei conta que a visceralidade, a franqueza, a forma como nos podemos espelhar no que escreveste, provoca muito mais. A necessidade de metamorfose é uma coisa que persegue muitos de entre nós. Queremos cumprir-nos em projectos, em estilos de vida, em formas de estar, e a certa altura o que temos não é bastante. E por isso crescemos, intelectual, cultural e humanamente. Abrimos as vistas. E da-mos um salto. Mas se há coisa da qual eu não duvido, é que a mudança implica o confronto, e o confronto exige coragem e o entendimento absoluto de que temos o direito a estar bem no mundo e na nossa pele. E é esse direito que espero que tenhas absorvido e que o reclames.

Um abraço

PS - o engraçado disto é que amanha, ou mesmo daqui a umas horas, nenhuma de nós se vai lembrar do que te disse ou do que tu escreveste... Porém, no momento da escrita e no momento da leitura... eu - garanto-te - estive realmente presente e desejei-te o mundo

Anónimo disse...

Gostei tanto tanto tanto.
Tudo de bom para ti e para esta "nova" fase.
Um beijinho