
A luz perde-se na obscuridade da sala, recortada pelo negro que escorre do tecto até ao chão. A cortina abre-se e a luz bate-nos certeira nos olhos. Cega-nos e não vemos nada, a não ser uma massa escura de gente, que sabemos ter os olhos pregados em nós. Fixamos o olhar no tortuoso silêncio que se estende à nossa frente, e ficamos ali, presos a um corpo que não é e não pode ser o nosso. Quando a voz finalmente soa, parece-nos sempre demasiado baixa, quase inaudível. A vertigem do momento obriga as palavras, já automatizadas, a soltar-se da garganta. Esboçamos gestos ensaiados e emoções provenientes do fundo do nosso olhar, que, naquele momento, nos é exterior.
E ela, por vezes, chega. Funde-nos com o reflexo da nossa personagem, num espelho de arestas demasiado afiadas, para que se possa sair dele. Nada mais existe a não ser aquele chão de madeira velha sob os nossos pés e o nosso corpo, que nunca esteve tão nu. Alguns chamar-lhe-ão arte, enquanto outros, movidos por uma intelectualização forçada, dirão que se trata da realidade. O certo é que deixamos de pensar em todas as anotações cénicas, que nos foram enchendo páginas e páginas de um texto, que decoramos com afinco. Tomamos como nossa a vida de alguém, que, afinal, não passa de um vulto inexistente, que só ganha consistência graças ao sal das nossas lágrimas e ao movimento do nosso corpo. O riso e o choro saem de nós com uma força catártica, até que a nossa voz se quebra no clímax de um grito e a cortina se fecha.
Voltamos à escuridão. Os aplausos vindos do exterior vão sendo cada vez menos audíveis. Tudo se cala. Nós estamos escondidos. Sós, uma vez mais. Temos o cabelo desgrenhado, o corpo num farrapo. Aquele espaço escuro volta a ser apenas um palco. E nós partimos, desfiados, descosidos por dentro.
Hoje, a cortina não se vai voltar a abrir. Vemo-nos, talvez amanhã, à boca de cena. Sem luz, ensaio, nem texto. Apenas nós. E os pedaços de nós.
E ela, por vezes, chega. Funde-nos com o reflexo da nossa personagem, num espelho de arestas demasiado afiadas, para que se possa sair dele. Nada mais existe a não ser aquele chão de madeira velha sob os nossos pés e o nosso corpo, que nunca esteve tão nu. Alguns chamar-lhe-ão arte, enquanto outros, movidos por uma intelectualização forçada, dirão que se trata da realidade. O certo é que deixamos de pensar em todas as anotações cénicas, que nos foram enchendo páginas e páginas de um texto, que decoramos com afinco. Tomamos como nossa a vida de alguém, que, afinal, não passa de um vulto inexistente, que só ganha consistência graças ao sal das nossas lágrimas e ao movimento do nosso corpo. O riso e o choro saem de nós com uma força catártica, até que a nossa voz se quebra no clímax de um grito e a cortina se fecha.
Voltamos à escuridão. Os aplausos vindos do exterior vão sendo cada vez menos audíveis. Tudo se cala. Nós estamos escondidos. Sós, uma vez mais. Temos o cabelo desgrenhado, o corpo num farrapo. Aquele espaço escuro volta a ser apenas um palco. E nós partimos, desfiados, descosidos por dentro.
Hoje, a cortina não se vai voltar a abrir. Vemo-nos, talvez amanhã, à boca de cena. Sem luz, ensaio, nem texto. Apenas nós. E os pedaços de nós.

4 comentários:
amiga eu fiquei sem palavras. apenas me apetecia levantar e bater palmas. não sei se o sítio, não sei se a imagem, não sei se a música (que sabes que eu a adoro...sei que provavelmente foi tudo. quase no mesmo espaço criado por mim num texto já há algum tempo escrito, mas desta vez um espaço retocado por ti.
quase que conseguia sentir a textura das grossas cortinas e as vozes lacrimejadas dos personagens.vejo-o o frio que vem do escuro, de trás do palco.entraste com toda a certeza e puseste "no palco" toda a tua dedicação e tinhas a certeza que no fim haveria ovações até dizer não! e houve. agora achas que a "peça" perdeu o sentido e decides seguir em frente, explorar novos soalhos velhos, e ver muitas mais luzes e massas escuras.não foi tempo perdido porque ficaste com marcas do corpo esfarrapado e da voz quebrada.cresceste!armazenaste, numa palavra adquiris-te.
o cenário está prestes a mudar e com a tua coragem e dedicação que no fim, dentro de ti, vais não ver uma massa escura mas uma massa iluminada com os holofotes apontados a ela e verás que todos te aplaudem fervorosamente e aí quando a cortina se fechar nas traseiras do cenário terás as pessoas mais importantes da tua vida à tua espera, prontas para te dar um abraço e murmurar-te algo.
por agora apenas tenho algo para dizer: Obrigado pela coragem e pelo exemplo que és. Parabéns!
talvez nos encontremos pelo "Teatro" S. João... ;)*
Oops! Ficou com um tamnhinho considerável..:p
Esqueci-me de referir que a versão da Unravel da Maria João e do Mário Laginha é a minha preferida...:)
beijinhoos*
Os meus aplausos, pelo texto, pelo texto ao som da musica, pela musica ao ritmo das tuas palavras.
Flutuam ,entre os actores ,as palavras por dizer , porque o palco se abre ,às gentes, no momento do silêncio partido em actos de inspiração recriada.
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