
Apetece-me ficar aqui. Os olhos pregados no tecto, o corpo envolto num algodão branco e macio. Aqui. Imersa no silêncio da janela entreaberta, por onde começa a entrar a luz.
Da cozinha, chega até mim o cheiro aromático e inebriante do teu café, que gostas de preparar todas as manhãs, como se de um ritual se tratasse. Consigo imaginar o teu cabelo, ainda despenteado, as mangas da camisa puxadas para cima, as tuas mãos grandes e desembaraçadas. Consigo adivinhar que andas à procura da compota de framboesa em todos os armários. Sei que tens o jornal aberto sobre a mesa, embora nunca tenhas tempo de o ler.
Da cozinha, chega até mim o cheiro aromático e inebriante do teu café, que gostas de preparar todas as manhãs, como se de um ritual se tratasse. Consigo imaginar o teu cabelo, ainda despenteado, as mangas da camisa puxadas para cima, as tuas mãos grandes e desembaraçadas. Consigo adivinhar que andas à procura da compota de framboesa em todos os armários. Sei que tens o jornal aberto sobre a mesa, embora nunca tenhas tempo de o ler.
Sempre foste uma criatura da manhã, de sorriso estampado no rosto logo ao acordar. Um sorriso de miúdo, capaz de me fazer abandonar o torpor reconfortante e quente da noite. Eu, que sou, definitivamente, um animal nocturno.
Daqui a pouco, vais entrar com uma chávena de café na mão e sussurrar-me ao ouvido que sou bonita, apesar da frase não passar de um cliché, demasiado usado para ser sentido, e de ambos sabermos que é mentira. E eu vou sorrir e afogar-me no teu abraço. Vou esquecer a noite de insónia e essa contínua incerteza que me penetra até aos ossos, todos os dias.
Apetece-me ficar aqui, nos teus olhos, no teu cheiro, no teu toque. Sem o carinho artificial da falsa timidez, nem o prazer contido à força das portas que não fecham. Aqui. Neste nosso submundo, onde a música que toca no final é sempre a nossa preferida e onde, todas as vezes, nos perdemos numa dança entrelaçada.
Não pretendo a compreensão das lágrimas afagadas, nem a doçura das palavras ditas num murmúrio. Que as lágrimas caiam, a pele se rasgue e a voz se quebre num grito. Que as quatro paredes que nos rodeiam abram na janela de cortinas afastadas e que a luz entre, cada vez mais intensa, e nos invada, nos estilhace por dentro. Até que não reste mais nada a não ser o sabor do sal da nossa pele.
aa
Hoje, apetece-me ficar. Dentro de ti.
Hoje, apetece-me ficar. Dentro de ti.

7 comentários:
Por dentro de mim, reconheço essa música. E, enquanto li o teu texto, fui a Beatriz de há alguns meses atrás... Sei que o que disseste me é familiar. Não sei porque é que, de repente, isso me fugiu das mãos…
Reparo que demoras a voltar ao blogue. Mas quando voltas, não escreves em vão…
Olaa :)
Um texto muito bem escrito, nem eu esperava outra coisa.
Com um léxico rico e variado.
Quase que consegui ver um quarto de manhã, onde a luz branca entra por uma janela qualquer...
Um texto espectacular sem duvida...agora o conteudo. Ah esse conteúdo que se encontra em tantos textos, até nos meus, nos de todos...Esse conteudo digo de alguem Erudito o cantar. x) (piada!)
Gostei muito , parabéns.
P.S.:musica gentilmente cedida pelo melhor filho de minha filha Tiago Guedes :D*
:)
O conteúdo do quarto de luz nao é, não será, a noite do hoje, mas a luz dádiva
.
Que bom ver silêncios a falarem tão bem... :)
beijinhos*
Uma das minhas músicas preferidas chama-se "Alegria Calada", mistura de flamenco e Jazz. è quase tão perfeita e líquida como o teu texto.
"Aqui. Imersa no silêncio da janela entreaberta, por onde começa a entrar a luz."
...Escrevemos com a mesma liberdade de espírito, na mesma simplicidade.
Parabéns pela escrita*
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