
O banco de jardim estava ainda molhado pela chuva que acabara de cair. O cheiro da terra molhada fez-me esquecer o trânsito infernal e os condutores completamente tresloucados, que amaldiçoara há poucos minutos Sentei-me e observei, por momentos, o espaço à minha volta. Lembrei-me de que já lá estivera, numa outra estação, deitada sobre a relva, com o Sol a bater-me no rosto e senti falta desse tempo. Dessas tardes passadas entre uma bica e um sorriso, em que nada mais existia para além do nosso jardim, das nossas árvores, das nossas flores, dos nossos passos marcados na poeira dos nossos trilhos.
Fechei os olhos, por momentos, e tentei absorver o silêncio estranho daquele jardim no coração da cidade, tão despido naquele momento.
Abri o caderno, que trazia comigo, e deparei-me com folhas e folhas rabiscadas, riscadas, escritas de uma forma, que, daí a algum tempo, até para mim própria, se iria tornar elegível. Carregava-o há semanas. Já estivera sentada na cadeira grande e confortável da minha escrivaninha e nos bancos do comboio, sempre apinhado de gente. Já me havia tentado refugiar num cantinho da biblioteca e até mesmo numa esplanada, algures em frente ao mar. Há muito que tentava escrever o que, hoje, para aqui transponho, e, desse esforço, haviam nascido inúmeras estórias alinhavadas com uma linha quebradiça, que continuam guardadas à espera de, talvez um dia, serem reveladas.
Não posso dizer que, durante este tempo de ausência, me tenha faltado a inspiração. Ela chega sempre. Todas as noites. Em vez disso, digo que me faltaram as palavras e a voz para proferi-las. Faltou-me a espontaneidade e a coragem necessárias para redigir um texto no qual falasse realmente de mim, na primeira pessoa. Para alcançar o que, hoje, lês aqui, foram necessárias muitas folhas rasgadas, muitas horas com a caneta suspensa sobre o papel. É difícil darmo-nos. E é estranha a sensação de escrever para alguém, tantas vezes, sem nome, nem rosto. É estranha esta necessidade de contar estórias, nas quais nem sempre fui personagem.
Fechei os olhos, por momentos, e tentei absorver o silêncio estranho daquele jardim no coração da cidade, tão despido naquele momento.
Abri o caderno, que trazia comigo, e deparei-me com folhas e folhas rabiscadas, riscadas, escritas de uma forma, que, daí a algum tempo, até para mim própria, se iria tornar elegível. Carregava-o há semanas. Já estivera sentada na cadeira grande e confortável da minha escrivaninha e nos bancos do comboio, sempre apinhado de gente. Já me havia tentado refugiar num cantinho da biblioteca e até mesmo numa esplanada, algures em frente ao mar. Há muito que tentava escrever o que, hoje, para aqui transponho, e, desse esforço, haviam nascido inúmeras estórias alinhavadas com uma linha quebradiça, que continuam guardadas à espera de, talvez um dia, serem reveladas.
Não posso dizer que, durante este tempo de ausência, me tenha faltado a inspiração. Ela chega sempre. Todas as noites. Em vez disso, digo que me faltaram as palavras e a voz para proferi-las. Faltou-me a espontaneidade e a coragem necessárias para redigir um texto no qual falasse realmente de mim, na primeira pessoa. Para alcançar o que, hoje, lês aqui, foram necessárias muitas folhas rasgadas, muitas horas com a caneta suspensa sobre o papel. É difícil darmo-nos. E é estranha a sensação de escrever para alguém, tantas vezes, sem nome, nem rosto. É estranha esta necessidade de contar estórias, nas quais nem sempre fui personagem.
Hoje, tive vontade de transpor a fronteira existente entre nós. Dizer-te quem sou, seria difícil. Talvez baste contar que sou apenas uma rapariga, igual a tantas outras, com a cabeça cheia de sonhos e a vontade, ainda ingénua, de partir de mochila às costas sem destino. Uma rapariga que se aborrece todos os dias com o cabelo, que tem o estranho hábito de comer iogurtes com colheres de café, que é absoluta e assumidamente viciada em chocolate, música e livros, e que tem o costume irritante de terminar aquilo que escreve com a expressão para sempre. Como se a eternidade realmente existisse e fosse palpável.
Nunca me encontrei. Continuo e continuarei perdida, quer seja na escuridão do meu quarto, ou no meio das multidões que se deslocam pelas ruas. Resta-me a caneta pousada sobre o papel, uma outra mão sobre a minha, um outro sorriso perdido no meu. Resta-me o meu eu, que não é contínuo, porque todos nós renascemos.
Nunca me encontrei. Continuo e continuarei perdida, quer seja na escuridão do meu quarto, ou no meio das multidões que se deslocam pelas ruas. Resta-me a caneta pousada sobre o papel, uma outra mão sobre a minha, um outro sorriso perdido no meu. Resta-me o meu eu, que não é contínuo, porque todos nós renascemos.
Hoje, libertei-me do casulo da minha própria metamorfose e estendi as minhas asas ao Sol.
E não, as palavras não morreram.

5 comentários:
Porque simplesmente és tu.
É assim que te vejo.
Fico contente por realmente constatar que tenho uma pessoa assim ao meu lado.
Uma pessoa que me caiu de para-quedas e que afinal me foi aparando muitas quedas.
Ainda bem que te tenho na minha lista de contactos. Ainda bem que és das pessoas em não tenho medo de chamar amiga ou algo mais familiar :p
Continuo (menos) perdido e continuarei assim...mas contigo à minha beira não tenho medo.
Afinal há que confiar nos medos.
um beijinho enormee*
Escreves muito bem. Gostei.
P. S. Houve aqui um equívoco - só quando o blog abriu li bem - tinha lido «o siléncio que funga», enfim, fiquei um bocadinho decepcionado, mas prontos... :)
Dark kiss.
Entendi-te perfeitamente. A sério. Como daquelas vezes em que realmente nos vemos espelhados nas palavras de um outro. Tal e qual. Esse reecontro com o banco de jardim, essa procura inconstante do texto ideal, as palavras que existem e na hora de passarem para o papel parecem não serem suficientes... enfim... disseste tudo o que eu não tinha conseguido ainda dizer... e disseste-o da melhor forma...
:)
Estou completamente desarmado e arrepiado. Algo em tudo o que escreves é perfeito. Ler-te é como ver uma torneira aberta sempre a jorrar água, sem parar, sem se decompor, sem falhas, só um fluxo interminvável de algo impalpável e ininterrompível. E cheio de vida.
Essa busca pessoal nunca há-de levar a lado nenhum, mas pelo menos alimenta o Sentido do teu dia-a-dia. Eu também me procuro, e vivo disso, não da resposta à pergunta que faço, porque essa nunca chegará.
Cada resposta traz consigo perguntas. Tu, quando escreves, respondes a algumas das minhas.
et me take you to the crying room
Let me lake you to the crying room
Covering our footprints in the sand
Covering our footprints in the sand
Let me take you to a quiet place
Let me take you to a quiet place
Wash away the memories that we have
Wash away the memories that we have
I gave you everything I had
I told you everything I knew
When you came to the crying room
When you came to the crying room
(ainda bem que não morreram)
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