
Fechei os olhos e senti o meu corpo comprimido contra o soalho frio. A aurora nascera envolta num nevoeiro que esbatia os contornos das árvores do jardim e que, aos poucos, ia invadindo o sótão e a minha própria pele. As folhas que escrevera na noite anterior espalhavam-se pelo chão, desfiguradas, rasgadas por um acesso de raiva de há poucos minutos. Um saxofone chorava, ao longe, enquanto alguém cantava uma música, que, dali, parecia ser jazz. O cabelo, cada vez mais molhado, caía-me sobre o rosto, e eu sentia-me gelar.
Permaneci, ali, deitada no chão, de olhos cerrados, incapaz de mover um único músculo, por tanto tempo, que podem ter sido duas horas ou a eternidade. À medida que o brilho húmido e difuso da manhã se ia apoderando daquele lugar, sentia-me cada vez mais leve. A água lavava-me os pensamentos e a alma.
Nos pedaços de papel que se encontravam no chão, já não havia mais nada, para além de meras palavras soltas ao acaso. Naquela madrugada, eu rasgara todas frases, vírgulas e reticências. Exorcizara toda e qualquer metáfora, hipálage, comparação. Naquela madrugada, eu pusera um ponto final definitivo na história tão forçosamente intelectualizada e rebuscada, escrita na noite anterior.
Quando, por fim, me levantei, corri novamente para a máquina de escrever, e comecei a bater desenfreadamente com os dedos nas teclas. Escrevi, agora, sem artifício nem mentira, sem pensar em regras gramaticais, ou em recursos estilísticos. Escrevi pelo prazer nas palavras, pela simplicidade e transparência das palavras. E uma nova história renasceu.
Hoje, vim aqui por causa dessa vontade que, por vezes, me tortura em noites de desassossego. Não pretendo interpretações, nem leituras nas entrelinhas, vim aqui na esperança que algum vulto, desse lado, me leia, vim aqui dizer o que sinto quando escrevo. Hoje, vim por mim e fiquei pelo amor às palavras.
aa
Amo-te como se deve amar: Excessivamente, ao ponto da loucura, do desespero. Há duas coisas que nunca devem ser medíocres: a poesia e o amor… Olhem para mim como uma criatura atingida por um mal fatal.aaJulie de L’Espinesse

5 comentários:
Olá Sofia....
Só te quero dizer que fizeste muito bem em vires escrever, e principalmente por ser por TI. Podem-nos chamar de egocêntricos, mas se de vez em quando não fecharmos as portas e janelas para nos sentirmos a nós, então não vamos servir de nada para os outros e tudo o que dissermos (ou escrevermos) e fizermos vai ser oco... Parabens.
Vieste.. E mais uma vez me deliciaste com a tua escrita..! E's real nessas tuas palavras.. E's verdadeira no q dzs.. Plo menos assim te "vejo"..!
Gosto de te ler..
Bjo *
Nem tinha reparado que ainda não tinha comentado este texte. Aqui vim para retribuir o (grande) comentário que me fizes-te.
Realmente se os nossos medos sao os mesmos ou não eu já desconfiava de algo!
É bom relembrar as nossas conversas tardias...e saber que confias nos meus medos, porque eu confio simplesmente em TI.
Um muito obrigado por tudo que já aturaste ='D
Beijo do Netinho =)*
muito muito muito muito bom :)
e mais posts não?
( a menina na foto é a tori não é?)
"Hoje, vim por mim e fiquei pelo amor às palavras"
Nao peço mais de um blog do que uma frase destas. Nada mais.
Obrigado. É mesmo bom saber que, de vez em quando, quando menos espero, posso vir a deparar-me com um blog como o teu, escrito por alguém como tu.
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