terça-feira, 29 de agosto de 2006

Abril


Pousou o lápis e abandonou as folhas sobre a mesa. Sentou-se na cadeira de baloiço junto à janela e sorriu ao ver, lá em baixo, duas crianças que brincavam no jardim. Um vento quente agitava o seu cabelo de prata. Sentia-se cansada, sabia que a juventude havia desvanecido para sempre. Mas ele continuava lá, o mesmo azul, o mesmo mar, intenso e profundo, encerrado dentro dos seus olhos.
Abriu o livro que trouxera para junto de si, e o cravo seco, que encontrou entre duas páginas, levou-a até um Abril distante. Lembrou-se de si ainda jovem, a espreitar curiosamente à janela, do misto de medo e ansiedade que sentiu ao ver os soldados que desciam a rua. Lembrou-se dos cravos, dos outros cravos, dos cravos nas pontas das espingardas. Lembrou-se da música e dos gritos de alegria nas ruas, da felicidade estampada no rosto de quem passava. Naquela noite, adormecera com a palavra Revolução a estalar-lhe na cabeça, com um orgulho imenso a preencher-lhe o coração.
Na manhã seguinte, ela veio, a tão ansiada Liberdade. A Revolução feita de Homens e de Cravos libertou a voz enclausurada à força do silêncio, restituiu a esperança, e uma Pátria, a mar forjada, renasceu.
Agora, sentada naquela cadeira, sentia-se sem forças para continuar a lutar por essa liberdade, que se tornara na sua própria biografia. Olhou para as mãos esquecidas no regaço e viu todas as histórias e poemas que atirara ao papel, viu os filhos adormecerem ao sabor das suas palavras.
No entanto, ao olhar para os netos lá em baixo, percebeu que já não precisava de continuar a lutar pela Pátria que ajudara a renascer. Nos olhos dos netos, viu o reflexo dessa manhã em que a corrente de silêncio se quebrou, viu a Liberdade. Porque, afinal, eram eles os filhos de Abril.
25 de Abril
aa
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
aa
Sophia de Mello Breyner

1 comentário:

Tiago disse...

Hum a tal data em que adquirimos a liberdade!Tenho pena e ao mesmo tempo um grande alívio de não ter vivido esses momentos mas graças a textos como estes dá para sentir o momento...

Quanto ao envelhecer...era bom avançarmos para coisa que gostamos e entusiasmados para o futuro :( mas o importante é nunca perder a tal força de lutar...

Exemplo e coragem!!Devia ser o que os netos da senhora de cabelo prata deviam sentir dela...

Beijinho para uma grande pessoa e amiga *