sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Silêncio


Estou, uma vez mais, sem sono. Sento-me em frente ao computador. Estou sem inspiração, mas este vício que é escrever toma conta de mim, percorre-me as veias, e deixa-me embriagada nestas noites de insónia e de solidão assistida.
Levanto-me, ponho-me em frente do espelho. Sorrio ao ver o desenho estampado no pijama, que os meus colegas me ofereram nos anos. O meu cabelo encaracolado está, como sempre, cheio de personalidade. Concentro-me no reflexo do meu rosto. Mergulho no verde dos meus olhos. Sem falsas modéstias, sempre gostei dos meus olhos. Tento perscrutar a minha alma, encontrar uma identidade, uma definição.
Certa vez, ouvi alguém dizer que a Mulher é o bicho mais estranho e mais belo do Mundo. Mulher... A palavra evade-se de todos os poros do meu corpo.
Estou a ouvir novamente a ouvir a música "The Blower's Daughter" de Damien Rice. Fecho os olhos, a música continua a ecoar nos meus ouvidos "I can't take my eyes of you"...
Abro os olhos e paro a música. Respiro fundo. Cerro, uma vez mais, os olhos e o silêncio chega finalmente. Uma quietude invade-me e sinto compreender todos os segredos deste Mundo. Sinto conhecer-me.
Espera
aa
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção, a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos mostram o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão pousada sobre a mesa
É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene.
aa
Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Dali


Gostava muito de História, era uma daquelas disciplinas que me conseguia fascinar. De facto, conseguiu despertar em mim um interesse que desconhecia, a pintura. Antes de, no meu 9º ano, ter aprendido algo sobre História da Arte, para mim uma pintura era tanto mais bonita quanto mais parecida fosse com a realidade. O meu pintor favorito era, nessa altura, Miguel Ângelo, com todas as suas obras de figuras perfeitas e angelicais.
A partir do momento em que comecei a conhecer as várias correntes de arte do século XX, houve uma que, imediatamente e sem qualquer explicação, me fascinou, o Surrealismo. E o principal responsável por este fascínio, foi, sem dúvida Salvador Dali.
Para ser sincera, não conheço ninguém (a não ser a minha antiga professora de Educação Visual, que não vejo há alguns anos) que goste realmente da pintura de Dali. A maioria das pessoas diz que os seus quadros não têm qualquer sentido, que são perturbantes e que o pintor devia ser completamente louco.
Quanto a mim, Dali ensinou-me a ver realidade com outros olhos. Os seus quadros transportam-me para uma outra dimensão, chamam-me à realidade distorcida e incomprensível dos sonhos. Não gosto de Dali apenas por ser considerado um grande artista. Gosto porque revela algo muito profundo em mim que não consigo explicar.
A pintura que aqui se encontra dá pelo nome "Galateia de Esferas" e nela está representada a mulher por quem Dali tinha uma verdadeira devoção, Gala, sua esposa. A mim, esta pintura faz-me recordar um dos poemas de Fernando Pessoa:

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Novo Ano

A minha passagem de ano foi particularmente especial. Fui para o Gerês com alguns amigos meus. Alugámos uma casa mesmo em frente ao rio Homem.
Apesar de sermos um grupo pequeno (apenas nove pessoas), divertimo-nos muito. Tal como o Igor dizia, ainda ontem, as pessoas que foram têm uma relação muito especial. Sinto que, apesar de já não andarmos juntos na escola, continuamos unidos, porque nos tornamos em algo mais do que simples colegas, tornamo-nos verdadeiros amigos.
Adorei o passeio que demos no Domingo de manhã. Não ia há alguns anos ao Gerês e já me havia esquecido da beleza inigualável daquele lugar. Divido o meu tempo entre o Porto e Lisboa e, apesar de serem duas cidades lindas que adoro, já sentia a falta de estar num lugar tão tranquilo como este. Foi fantástico poder ver as mudanças de clima consoante a altitude a que nos encontrávamos, apreciar a paisagem que nos enchia tanto os olhos como a alma e respirar esse ar imaculado emanado pela natureza. Ali, onde a mão do Homem ainda não passou, senti fazer parte integra da natureza.
Assim, passou mais um ano e, como ano novo ainda continua a ser sinónimo de vida nova, voltamos a subir para cima de uma cadeira e a comer as doze passas, alimento do qual muita gente não gosta, mas que as pessoas continuam a comer só para pedir doze desejos para o novo ano.
Estamos numa daquelas alturas em que fazemos mil e um projectos e resoluções, afirmando que, daqui para a frente, tudo vai ser diferente. Mas o Mundo não vai mudar, as pessoas más continuarão a ser más, os nossos doze desejos não se vão, provavelmente, realizar na sua totalidade, a nossa vida não vai passar a ser perfeita
No entanto, não quero com isto estar a passar uma mensagem de tristeza. Se cada um de nós der um pouco de si àqueles que o rodeiam e tentar construir a sua felicidade todos os dias, a nossa vida poderá não ser perfeita mas será, concerteza, maravilhosa.
Um bom ano para todos!!!!