Salvador Dali
Olha para mim. Só eu estou aqui. Eu e o meu corpo nu, a esta luz crua. Despida à força de uma timidez obrigada a evadir-se. É assim que sou, sem o cabelo arranjado com afinco todas as manhãs, nem a maquilhagem que tu nunca notas, ou finges não notar. Hoje, não coloquei o perfume de sempre, não vesti a camisola que me realça os olhos, não calcei um dos tantos pares de sapatos desconfortáveis que tenho guardados no armário. Não enveredei pelo ritual de artifício que antecede, todas as vezes, a tua chegada.
Gostava de saber o que vês. Gostava de saber se reparas nas sardas que tenho no nariz, ou na cicatriz que fiz, há muito tempo, em casa dos meus avós. Gostava de saber o que vês para lá da minha pele sempre tão branca, sempre pronta a mostrar qualquer sinal de sensibilidade ou de imperfeição.
Não preciso que me ames. Não preciso do aconchego das tuas palavras doces. Toda a vida fiz questão de permanecer estoicamente a sós com os meus medos. Só preciso que olhes para mim e que me vejas sem a redoma de vidro frágil que carrego invariavelmente aos ombros. Quero que me vejas assim. Nua. Revelada. Porque, sabes, eu não sou essa luz, nem essa eloquência de que falas. Eu sou, muitas vezes, esse céu sufocante e avermelhado das grandes cidades onde não há luar, onde os jardins não são mais do que o antro de putas e pederastas, e onde as únicas luzes acesas são as dos vãos de escada de outros tantos vícios vis e lascivos.
Abre a porta e sai. Parte antes que o medo de te perder seja maior do que o de te ter comigo, antes que as esferas dos nossos mundos se quebrem e dispersem para sempre a nossa essência. Não quero que me ames. Não quero sequer que gostes de mim. Não quero que compartilhes comigo este espaço à distância de uma mão estendida do lugar dos sonhos. Esse fardo é só meu. E, se um dia o destino decidir arrombar as portas de sombra e a luz entrar pelos meus olhos, espero por ti à meia-noite, algures entre a vírgula e o ponto final. Nesse lugar à meia-luz, que nunca te contei, mas que sabes onde fica.
Não preciso que me ames. Não preciso do aconchego das tuas palavras doces. Toda a vida fiz questão de permanecer estoicamente a sós com os meus medos. Só preciso que olhes para mim e que me vejas sem a redoma de vidro frágil que carrego invariavelmente aos ombros. Quero que me vejas assim. Nua. Revelada. Porque, sabes, eu não sou essa luz, nem essa eloquência de que falas. Eu sou, muitas vezes, esse céu sufocante e avermelhado das grandes cidades onde não há luar, onde os jardins não são mais do que o antro de putas e pederastas, e onde as únicas luzes acesas são as dos vãos de escada de outros tantos vícios vis e lascivos.
Abre a porta e sai. Parte antes que o medo de te perder seja maior do que o de te ter comigo, antes que as esferas dos nossos mundos se quebrem e dispersem para sempre a nossa essência. Não quero que me ames. Não quero sequer que gostes de mim. Não quero que compartilhes comigo este espaço à distância de uma mão estendida do lugar dos sonhos. Esse fardo é só meu. E, se um dia o destino decidir arrombar as portas de sombra e a luz entrar pelos meus olhos, espero por ti à meia-noite, algures entre a vírgula e o ponto final. Nesse lugar à meia-luz, que nunca te contei, mas que sabes onde fica.

