
O corpo começava a dar os primeiros sinais de cansaço. Caminhara durante muito tempo, sem rumo, nem objectivo, tentando fugir de um medo sem nome nem rosto. As pernas doíam-lhe, agora, queixando-se das ruas demasiado inclinadas, dos paralelos mal colocados, do salto dos sapatos, que calçara de manhã à pressa. Sentia calor, embora o vento de um Inverno precoce mantivesse a sua face fria, e o nariz vermelho. Parou, por um momento, para tirar o cachecol, e pensar num local onde se pudesse sentar e beber um chá quente. E foi, nesse instante, que reparou nela. Escondida no meio dos outros edifícios e dos transeuntes que se passeavam em multidões apressadas, erguia-se em direcção ao céu. Os azulejos que a revestiam eram de um azul impossível, e o sino tocava, assinalando as horas.
Quando entrou, sentou-se num dos bancos, de uma madeira fria e desconfortável, e fechou os olhos. Pensou há quanto tempo não entrava numa igreja e deixou-se estar ali, imóvel, com as mãos perdidas no regaço. Ouvia apenas o burburinho das duas mulheres que colocavam flores em frente a um dos altares, e sentia o cheiro da cera derretida, misturado com o aroma do incenso. Não rezou. Afinal, não estava ali pela fé. Não viera em busca de respostas, não viera pedir nada. Estava ali em busca da unidade, do sentido de paz, que precisava para se encontrar consigo mesma.
Pela primeira vez em muito tempo, deixou que o silêncio a invadisse. O segundo brilho dos espelhos abateu-se sobre ela, num estilhaçar inaudível, e o seu reflexo, que evitava há muito, surgiu. Apercebeu-se de que a única coisa da qual fugia era de si própria. Naquele momento, não tinha nenhum rumo, nenhuma direcção a seguir. Já caíra tantas vezes, que a sensação do chão contra o corpo já não doía, já não era capaz de sentir tristeza, nem felicidade, tudo o que restara fora um vazio imenso. Sentia-se intoxicada, sufocada pelo próprio ar, nua, ao rever-se tão perdida. Precisava desesperadamente de algo a que se agarrar. E Permaneceu ali, sentada, sem forçar qualquer pensamento, qualquer acção.
Quando saiu, o Sol bateu-lhe no rosto, e um sorriso verdadeiramente genuíno iluminou-lhe o olhar, ainda húmido. Ao pisar novamente a calçada, os pés já não doíam. Não sabia ao certo qual o caminho a seguir, mas sabia o destino a tomar. O medo, esse, continuaria sempre presente, mas o oxigénio, que afinal não é nada mais do que o maior de todos os vícios, voltara a abrir-lhe os pulmões. A vida moveu-se, e ela voltou a sentir-se apaixonada por cada segundo, por cada respiração.
E foi por isso, que ao cair da tarde, enquanto bebias o teu chocolate quente e lias o teu jornal de sempre, ela te deu a mão e sussurou ao teu ouvido: eu confio nos teus medos.
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Inspirado numa dessas conversas tardias, sem pergunta, nem resposta, quando o que temos não é nada mais do que a noite e a estrada que se estende à nossa frente.
