
Adeus. Foi o que te disse ao partir. E corri, fugi desesperadamente do teu corpo, da tua presença. A calçada gasta sob os meus pés, as lágrimas nos nossos rostos, o frio cortante, as minhas mãos nas tuas, envolvidas num último toque, a sensação da tua pele, do teu cheiro, surgem-me agora como imagens já dissolutas e recalcadas à força do tempo.
O som da tua voz vai-se tornando cada vez menos nítido, mas a tua última palavra teima em martelar todas as noites o meu sono. Fica, foi o que gritaste quando eu estava já no fundo da rua e eu não olhei para trás.
Imagino-te, agora, sentado numa escuridão quase total, a ouvir a mesma música há horas, com o corpo entorpecido, uma chávena de café ao teu lado e algumas folhas pelo chão, com esse olhar que sempre te invade no êxtase da inspiração. Não sei o que pensas. Não sei se, para ti, eu não sou mais do que uma velha fotografia, tirada algures no Chiado, guardada no fundo de uma gaveta. Tento cerrar os olhos e imaginar uma das tuas gargalhadas, nessas tardes de Sol, que passávamos juntos, mas já não ouço nada. Neste momento, tudo o que consigo recordar com lucidez é o teu sorriso.
Durante muito tempo, vivi presa no paradoxo de conseguir esquecer-te e, simultaneamente, guardar-te comigo. No entanto, o tempo, não esse da batida obsessiva do relógio, mas o do canto do galo de madrugada, encarregou-se de levar consigo a dor. Ficou a saudade. Ficou a vaga recordação do Tejo nas noites frias em que eu vestia o teu casaco, do cheiro do cappuccino que bebíamos juntos, da janela voltada para o quintal, onde os pássaros cantavam nos dias de Sol, do meu olhar perdido no teu.
Agora que a noite já vai longa, vou fechar o baú das recordações. Quando o voltar a abrir, espero lá encontrar memórias desse tempo em que as nossas vidas se encontraram, em que os nossos medos eram os mesmos. Nessa altura, já não seremos mais do que uma imagem distante, talvez vagamente colorida, uma recordação feliz da juventude. Já não nos lembraremos de cada pormenor do rosto do outro, nem como as nossas mãos ficavam unidas. Mas as lágrimas que choramos juntos, as vitórias, os sorrisos partilhados a dois, as desilusões, e tudo aquilo que vivemos e sonhamos, isso ficará certamente guardado para sempre.
aaaa
A todos aqueles a quem, um dia, eu disse adeus.
