
Fechei os olhos e senti o meu corpo comprimido contra o soalho frio. A aurora nascera envolta num nevoeiro que esbatia os contornos das árvores do jardim e que, aos poucos, ia invadindo o sótão e a minha própria pele. As folhas que escrevera na noite anterior espalhavam-se pelo chão, desfiguradas, rasgadas por um acesso de raiva de há poucos minutos. Um saxofone chorava, ao longe, enquanto alguém cantava uma música, que, dali, parecia ser jazz. O cabelo, cada vez mais molhado, caía-me sobre o rosto, e eu sentia-me gelar.
Permaneci, ali, deitada no chão, de olhos cerrados, incapaz de mover um único músculo, por tanto tempo, que podem ter sido duas horas ou a eternidade. À medida que o brilho húmido e difuso da manhã se ia apoderando daquele lugar, sentia-me cada vez mais leve. A água lavava-me os pensamentos e a alma.
Nos pedaços de papel que se encontravam no chão, já não havia mais nada, para além de meras palavras soltas ao acaso. Naquela madrugada, eu rasgara todas frases, vírgulas e reticências. Exorcizara toda e qualquer metáfora, hipálage, comparação. Naquela madrugada, eu pusera um ponto final definitivo na história tão forçosamente intelectualizada e rebuscada, escrita na noite anterior.
Quando, por fim, me levantei, corri novamente para a máquina de escrever, e comecei a bater desenfreadamente com os dedos nas teclas. Escrevi, agora, sem artifício nem mentira, sem pensar em regras gramaticais, ou em recursos estilísticos. Escrevi pelo prazer nas palavras, pela simplicidade e transparência das palavras. E uma nova história renasceu.
Hoje, vim aqui por causa dessa vontade que, por vezes, me tortura em noites de desassossego. Não pretendo interpretações, nem leituras nas entrelinhas, vim aqui na esperança que algum vulto, desse lado, me leia, vim aqui dizer o que sinto quando escrevo. Hoje, vim por mim e fiquei pelo amor às palavras.
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Amo-te como se deve amar: Excessivamente, ao ponto da loucura, do desespero. Há duas coisas que nunca devem ser medíocres: a poesia e o amor… Olhem para mim como uma criatura atingida por um mal fatal.aaJulie de L’Espinesse
