segunda-feira, 17 de julho de 2006

Ao Amor


A casa ainda estava lá, escondida numa viela feita de pedras, paralelos e bairrismo. A fachada, cinzenta e velha, contrastava com o branco imaculado dos cortinados bordados à mão. Um fado vadio, tão vadio quanto o gato do telhado, irrompia pelas janelas. E essa saudade, que é só nossa por direito, minha por maldição, essa saudade que, tantas e tantas vezes, já chorara, fez-me sorrir. E foi mergulhada nesse sorriso, absurdamente feliz, que parti dali.
Quando cheguei a casa, corri para o sótão, agarrei-me à velha máquina de escrever e, pela primeira vez, em muito tempo, não tive medo de escrever sobre o amor. Não tive medo que as minhas palavras parecessem ridículas, porque, afinal de contas, essa coisa estranha a que chamam amor continua a ser aquilo que faz de nós Humanidade.
Aponto o dedo a todos aqueles que o tentaram banalizar, vendendo-o em leilões televisivos, publicitando-o em conversas cibernéticas. A enxurrada enjoativa de amor fez com que a antiga odisseia de encontrar o homem ou a mulher da nossa vida se tornasse no mais ridículo dos pensamentos. E vamo-nos perdendo em diferentes corpos, que não são nada mais para nós do que isso, simples corpos. Vamos simpatizando com alguns sorrisos. Vamos gostando aqui e ali, deste e daquele. Mas amar, não, isso é para os sonhadores.
Até que um dia o amor bate mesmo à nossa porta e deixamos de ter medo de ser ridículos. Acordamos e adormecemos com a imagem da mesma pessoa na cabeça, sorrimos por tudo e por nada, mesmo quando estamos sozinhos. Sentimos o nosso batimento cardíaco a aumentar, as mãos frias e transpiradas. Dizemos aos nossos amigos que estamos apaixonados, oferecemos presentes, tais como flores e bombons. Damos por nós a escrever poemas e a chorar com comédias românticas. Uma equação complexa de processos neurológicos e hormonais inibe o nosso pensamento racional e somos capazes dos actos mais obsoletos e altruístas para demonstrar o nosso amor.
Agora, que a noite já vai longa e que uma montanha de folhas rasgadas se acumula em meu redor, quero aqui deixar um elogio ao amor. Ao amor verdadeiro, altruísta, romântico e ridículo. Ao amor cego, que nos faz arriscar o desconhecido. Ao amor que nos deixa sem fôlego, que nos faz correr atrás. Ao amor das mãos dadas, dos passeios na praia e no parque. Ao amor impossível, pelo qual somos capazes de morrer e de matar. Ao amor da saudade e do desequilíbrio, que nos faz rir e chorar ao mesmo tempo. A esse amor que se enraíza na nossa alma e que nos faz querer beber cada gota da vida que nos foi oferecida.