quarta-feira, 14 de junho de 2006

Outro beijo...


Lembro-me dessas tardes de Verão, em que nos sentávamos sob a sombra de um guarda-sol a olhar o mar. Lembro-me dos teus olhos grandes, redondos, castanhos, assustadoramente profundos, e lembro-me da vontade que tinha de mergulhar neles e nas tuas palavras doces. Ainda consigo sentir o aroma do chá que bebíamos juntos.
Conversávamos horas a fio, ali, naquela esplanada voltada para o mar. Trazias sempre um livro diferente contigo e lias-me sempre um excerto. Também eras um apaixonado pelas palavras. Falavas com uma clarividência e um entusiasmo invejáveis. Eras movido por uma força que provinha dessa sede que tinhas de descobrir, de conhecer sempre algo novo.
Ontem, depois de tanto tempo, ao descer do comboio, vi-te por entre o barulho e a confusão da estação. Estavas longe, não olhaste para mim. Apercebi-me que ainda consigo sentir as tuas mãos quentes pousadas sobre as minhas sempre tão frias, que ainda consigo ouvir as tuas gargalhadas.
Depois, voltei à praia. Estava frio, as conchas rangiam sob os meus pés descalços. Aproximei-me do mar e deixei que as ondas molhassem os meus pés. Fechei os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, consegui sentir verdadeiramente o toque, o cheiro do mar, no meu corpo tão só e tão nu naquele momento. A esplanada onde nos costumávamos sentar já não está lá. Eu já não tenho sede das tuas palavras. Tudo o que restou foi um vazio imenso.
Quando cheguei a casa, abri o baú das recordações e arrumei as tuas coisas, e ainda coube lá mais um beijo, um outro beijo, tão doce quanto uma cereja.