
A noite já vai longa, e leio, agora, à meia-luz. A música "I Cried For You" da Katie Melua acompanha os meus pensamentos, enquanto vasculho vestígios de estórias escritas há muito, por um "eu" longínquo e intangível.
Decidi colocar aqui um fragmento de uma dessas estórias, porque, hoje, a inspiração me falta, porque, hoje, me identifico com o personagem. E porque todos já choramos e eu, hoje, já chorei e já sorri.
Lembro-me do dia em que partiste. Entrei em casa a correr, fugia da chuva, e encontrei uma carta tua no chão, junto à porta:ll"Eu andei perdido neste Mundo durante muito tempo, até que um anjo me encontrou e me fez voltar à vida. Amei esse anjo mais do que algum dia pensei que fosse possível, mas pedir que me amasse seria exigir demais. Por isso, parto para novamente me perder, com o desejo de que esse anjo volte e fique para sempre…”ll
Quando acabei de ler, olhei pela janela e vi que estavas lá fora. Uma chuva miudinha envolvia-te. O teu corpo magro e alto permaneceu quieto durante algum tempo, incapaz de se mover, incapaz de pronunciar uma única palavra, incapaz de um gesto de amor. Foi nesse momento, debaixo daquele céu que se abria, vendo para além dos teus olhos negros e serenos, que percebi o quanto me amavas.
Agora que não estás aqui, é que me apercebi da falta, da saudade que sinto por ti. Por isso, estou arrependida por não te ter sorrido mais vezes, nem não te ter elogiado mais vezes. Arrependida por não te ter abraçado e ouvido os teus desabafos sempre que precisaste. Arrependida por não te ter dito que te amava, por não ter impedido que partisses.
