quarta-feira, 12 de abril de 2006

Infância


O comboio arranca, recosto-me à janela e penso “mais três horas de caminho”. O comboio prossegue em marcha lenta, coloco os auriculares nos ouvidos e ligo o mp3. Entretenho-me a olhar o Tejo, enquanto a voz doce da Mafalda Veiga vai cantando aos meus ouvidos.
O comboio continua a andar anormalmente devagar e acaba por parar. Uma voz masculina, com um sotaque portuense carregado, informa os passageiros que, por motivos de via única, iremos permanecer parados durante algum tempo e pede desculpa pelos eventuais incómodos causados. Típico, penso. Já um tanto aborrecida, decido ligar o portátil e lembro-me que, por um mero acaso, tenho o DVD do Shrek na minha mochila.
Começo a ver o filme e sorrio, logo de imediato, com o Burro que fala ininterruptamente, com o Ogre que diz que as pessoas são como as cebolas e com a tão pouca graciosidade da princesa Fiona.
O comboio volta a arrancar. O filme faz-me lembrar o tempo em que acordava aos Domingos, às sete da manhã, e me sentava no sofá, com uma tigela enorme de Chocapics com leite, a ver desejos animados. Lembro-me que me levantava cedo para poder ver a Navegante da Lua e os desenhos animados da Disney. A minha infância foi passada na companhia dos eternos sorrisos do Mickey e do Pato Donald, sonhando com histórias de príncipes e princesas.
O comboio anda a 150 km/h. Não pedi para crescer, mas cresci, e essas manhãs de Domingo, que agora recordo, pertencem a um passado absolutamente intangível, impossível de reproduzir.
Agora, já não adormeço com a certeza de que um príncipe me irá acordar e levar-me no seu cavalo para a terra dos sonhos. Agora, acordo com vontade de pôr a mochila às costas e partir para onde a estrada me levar, olhando o Mundo de frente e andando a pé para sentir cada pedra do caminho.
Já não me levanto cedo, deito-me tarde. A noite traz consigo o abalo da revelação. Perco-me no meio de palavras que nunca irão fazer jus aos pensamentos. Já não espreito a última página do livro de aventuras. Leio cada página do romance tentando absorver cada uma das palavras.
O comboio atinge os 200 km/h. O tempo urge. Os ponteiros do relógio nunca hão-de parar. Cresci. Agora, há que ir até à locomotiva e dirigir o comboio, com a certeza de que um sorriso travesso na face e uma mão cheia de sonhos irão acompanhar-me para sempre.