terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

"O Segredo de Brokeback Mountain"


Semana passada, fui ao cinema ver "O Segredo de Brokeback Mountain" e, para além da controvérsia, dos galardões recebidos, das críticas ferozes, para além do ainda tabu da homossexualidade, o que caracteriza verdadeiramente esta estória (e é mesmo assim que se escreve) é o amor.
Sim, "Brokeback Mountain" é uma estória de amor. Só que, desta vez, não é protagonizada por uma princesa bela e frágil, salva de um destino fatal por um príncipe de sorriso brilhante e espada em punho. Este é um filme sobre uma realidade que se tenta, há muito, esconder. "Brokeback Mountain" tem o mérito de ter conseguido algo que jamais algum filme conseguiu, retratar a homossexualidade sem a estigmatizar, dando-nos a conhecer a verdade nua e crua.
Este filme fez-me pensar na descriminação que pesa sobre os ombros dos que são diferentes, nesta sociedade que se diz moderna e com valores, mas que continua a assassinar a diferença na valeta da estrada.
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
aa
Aqui, na Terra, a fome continua,
aa
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
aa
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
aa
E são brinquedos as bombas de napalme.
2
José Saramago

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

D'Ouro


Fechou os olhos. A luz quente de um Sol de Inverno bateu-lhe no rosto e salientou-lhe as sardas do nariz.
À sua frente, um rio, cujo nome se devia à sua cor outrora dourada, corria calmamente para o seu mar. Um barco rebelo acabava de partir atulhado de turistas. A ponte erguia-se sobre o rio, à força do ferro, e unia duas cidades. Do outro lado, as casas faziam jus à tradicional cascata de S. João, encavalitadas no declive íngreme, sobrepostas, pintadas de inúmeras cores, umas novas e bonitas, outras demasiado vergadas pelo tempo. Viam-se ruas pitorescas onde os automóveis passam com dificuldade e as mulheres desesperam quando o salto alto fica preso entre os paralelos, que é a designação que se dá às ruas de pedra por estas bandas.
A rapariga das sardas no nariz afastou uma madeixa de cabelo que lhe caía sobre o rosto e fixou o seu olhar na cidade que a vira nascer. Quem a visse, naquele momento, diria que os seus olhos reflectiam o mesmo verde do rio e julgar-se-ia capaz de mergulhar nos sentimentos, estórias e segredos que guardavam. A tonalidade dos seus olhos ficava sempre mais profunda quando tinha vontade de chorar. Não. Não estava triste, nem teria motivos para tal. Mas sentia-se invadida por um misto de saudade e de nostalgia que nunca sentira. Perguntou-se se ainda ali pertencia, se as suas raízes ainda permaneciam naquele lugar. Perguntou-se se teria raízes.
O alarme do telemóvel tocou, recordando-a que estava na hora de ir apanhar o comboio. Apanhou um táxi até Campanhã, carregou com dificuldade a mala, o portátil que lhe parecia sempre inexplicavelmente pesado e a mochila, e, finalmente, sentou-se. Encostou a cabeça à janela e, quando o comboio passou sobre o rio, não conseguiu evitar que as lágrimas rolassem pela sua face. Sabia que ía para um cidade igualmente linda, sabia que, na próxima semana, iria regressar a casa. Mas não sabia se algum dia iria regressar definitivamente.
Partia por desejo próprio e com a certeza de que Lisboa podia ser a bela cidade das sete colinas, podia até vir a roubar-lhe o coração, mas era a luz bela e sombria do Porto que iria guardar a sua alma para sempre.